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sábado, dezembro 29, 2007

Finding the meaning of life... ou não


"Gostaria de viver num local onde as pessoas, mesmo aquelas que não conhece, estão sempre dispostas a ajudar? Onde as preocupações com o ambiente não são palavras vãs? Onde é possível participar facilmente e de uma forma efectiva nas decisões que são tomadas e que afectam a todos? Um local pacífico, onde não é preciso ter medo de assaltos? Está pronto para mudar de vida?"
texto completo aqui, onde conto a minha história pessoal sobre a busca das ecoaldeias e comunidades sustentáveis. No alentejo, na alemanha, na escócia, em gondomar, almada, são martinho ou odemira... continuei à procura do sentido para a vida. acabei por convencer-me que ele estava em mindelo... para mais tarde descobrir que (talvez) não.

PS. encontraram-me na imagem acima?

Amazónia e Pantanal


e chego ao quinto septénio, dos 29 aos 35 anos, de Maio de 2001 a Maio de 2008, se tudo correr bem. A 25 de Julho de 2001 partimos para o Brasil. Do extenso "diário de um aventureiro em busca do primitivo" que na altura escrevi, escolho este excerto:

A Selva cristalina
Após uma estrada de pó vermelho, rodeada de fazendas e pastagens de gado sarapintadas de cupim, chegamos, quase entramos de ônibus, numa abertura da mata: um rio imenso surge por detrás de uma imagem de beleza inesquecível. É esta a porta de entrada para um mundo à parte, agora sim, ‘longe de tudo’.
Separados por três barcos, subimos o Teles Pires, entramos no Cristalino, rumo à selva profunda. Sentimentos? Somos Costeau, aventureiros amazónicos... é o regresso às origens, à magnitude do selvagem, ao mistério do primitivo. Percorremos as veias de Gaia, numa extasiada emoção, afastando da cabeça a voz que nos chama loucos. A viagem é por demais maravilhosa!
Chegamos ao nosso acampamento na selva, na verdade um lodge, onde somos recebidos por uma iguana que protege os seus ovos, indiferente aos animais que chegam de outro hemisfério. Afogamos os nossos receios em caipirinhas. O medo da selva, do desconhecido, do bicho que pica e come... que rasteja e é peludo, que nos espreita constantemente... é forte. Mas estar aqui, rodeados de muitos km de selva, sem carros, sem prédios, sem civilização alguma... cercados por um verde denso, repleto de sons e sombras... é indescritível.
O Cristalino, o ‘nosso’ rio que corre para o Amazonas, é uma grande cobra de águas escuras, serpenteando pela Selva. Junto a ele estivemos a ver as estrelas e o imenso céu, iluminado por uma lua que não sabemos se cresce ou descresce. O brilho dos olhos, reflectindo a luz das lanternas, denuncia os jacarés, que somamos à já longa lista de “figurinhas”.
Já à luz de velas (o gerador apagou-se) termino estas linhas, sem querer deixar de recordar o rosto belo de felicidade da Marta, subindo o rio, dizendo-me ser este talvez o sentido para a minha vida: o de manter sempre acesa esta coisa linda.

sexta-feira, setembro 07, 2007

carta aberta ao primeiro-ministro

Demasiada letra
50 anos da Reserva Ornitológica de Mindelo

Parabéns Sr. Primeiro-Ministro! Ontem fez 50 anos e por isso escrevi esta carta aberta. A felicitá-lo. E a lembrar (sim, nisto sou um bocado chato) que a Reserva Ornitológica de Mindelo também fez 50 anos, uns dias mais cedo, mais precisamente no dia 2 de Setembro. Durante 24 horas seguidas os Amigos do Mindelo estiveram com a ROM: acampamento, passeio nocturno, acções de limpeza, picnic, prova de orientação... Com a participação do Centro Juvenil de Campanhã, da Junta de Freguesia de Mindelo, da associação Terra Viva e do Clube de Orientação do Minho.

No dia seguinte, como em todos os dias, prosseguimos os trabalhos de requalificação da Reserva, transformando-a, passo a passo, num espaço mais atractivo, concretizando um movimento de cidadãos único no país pela sua determinação e continuidade.

O "silêncio" da Câmara Municipal de Vila do Conde e do Instituto de Conservação da Natureza e Biodiversidade (ICNB), que tinham anunciado o novo estatuto de área de paisagem protegida para esta data, é por demais ensurdecedor. Continua o permanente adiar de uma decisão que é urgente, que é preciso transformar em iniciativas concretas no terreno e não meras declarações para os jornalistas. É preciso, como a associação alertou por várias vezes, informar a população e envolver os proprietários. Inclusivamente a nova proposta de área protegida não foi discutida na Assembleia Municipal, conforme requerido pelo ICNB.

Lembramo-nos que 20 anos atrás, em 1987, foi apresentado pela Comissão de Coordenação da Região do Norte o "Plano Preliminar da Área de Paisagem Protegida do Mindelo - Vila do Conde", como reacção a um "estudo urbanístico" aprovado pela Câmara Municipal uns anos antes e que iria fazer desaparecer a ROM (nas palavras do seu fundador, o Prof. Santos Júnior). Felizmente o loteamento nunca foi concretizado, mas a nova área protegida também não. Numa conversa franca com o promotor imobiliário e patrocinador de campanhas políticas, ele confessava-me que o erro dele foi apresentar um grande projecto e não ir avançando com as casas reserva adentro, aos poucos, como outros faziam com sucesso. Afinal, eram cerca de 1500 habitações turísticas, dezenas de campos de ténis, oito piscinas e pelo menos um hotel. É, isso chamou um bocado a atenção... Disse-me também que o projecto não está no caixote do lixo, mas na gaveta, à espera de melhores dias. Disse-me que tem tempo para esperar... Mas nós também!


Projecto de autoria do Arq. Nuno Portas, para a empresa Sanfins e Pinho, Lda. (1983): “se o problema dos passarinhos fosse sério tê-lo-ia levado a sério”

Será que desta vez a ROM verá o seu novo estatuto aprovado? Ou eternamente adiado? Irá transformar-se num espaço de promoção de actividades económicas sustentáveis, turismo e lazer, e de uma actividade educativa e científica em meio natural? Ou ficará como problema que nos envergonha a todos, como referiu o presidente da Câmara?

O conceito de Desenvolvimento Sustentável foi globalizado 20 anos atrás, também em 1987, através do relatório "o nosso futuro comum" das Nações Unidas.
Fica o apelo para que a ROM e o Desenvolvimento Sustentável deixem de ser apenas letra morta, ou demasiada letra. O tempo para decidir está a esgotar-se.

Sr. Primeiro-Ministro, a ROM e os cidadãos de Vila do Conde merecem uma prenda.

(publicada no jornal O Primeiro de Janeiro)

quinta-feira, abril 19, 2007

O concretizar de um sonho

cá vai, em primeira mão, a minha ultima cronica, a ser publicada no primeiro de janeiro de amanhã

Desenvolvimento Sustentável em Mindelo
O concretizar de um sonho

Aprendi a gatinhar nas areias de Mindelo, 34 anos atrás. Quem me via a carregar areia no meu camião de plástico ou a construir castelos e pontes bem que pode ter achado que teria um futuro brilhante na construção. Mas não. O que eu gostava mesmo era de explorar as “pocinhas” que se formavam nos rochedos, quando a maré vazava. De brincar com as estrelas-do-mar, com as anémonas e com as algas. De ir apanhar mexilhões e lapas com o meu Pai. E à tarde refugiar-me do calor nos canaviais perto de casa, onde construía cabanas e montava emboscadas. Hoje em dia as “pocinhas” ainda lá estão. Os canaviais é que já não, em grande parte transformados em casas.
Foi só em 1994 que visitei a Reserva Ornitológica de Mindelo pela primeira vez, ou melhor, que explorei aquela enorme área “oculta” entre Mindelo e Árvore. Chovia torrencialmente e por todo o lado havia lagos, pelo que tivemos de “saltar” de duna em duna. Nessa altura não fazia ainda ideia das ameaças que pairavam sobre este espaço, nem conhecia o longo historial de estudos científicos aqui realizados que remontam, pasme-se, aos finais do século XIX! Este dia acabaria por ser marcante para a decisão de, três anos mais tarde, decidirmos vir morar para Mindelo.
“Pensar Global, Agir local”. Enquanto ambientalista em gestação, tratei de descobrir quem era aquela gente que, de forma pioneira, protegia as dunas e reciclava o lixo. Acabei por ir bater à porta da sócia n.º 1 dos Amigos do Mindelo. Tanta coisa que havia para fazer! Por isso decidi começar pela ROM. Havia que dar continuidade a tantos anos de luta em defesa da criação de uma área verdadeiramente protegida. Dez anos antes, em 1987, tinha sido feito o “Plano Preliminar da Área de Paisagem Protegida do Mindelo - Vila do Conde”. Mas tudo continuava na mesma.
Os anos seguintes foram passados a chamar a atenção para este espaço, a tentar mostrar todo o seu potencial. A dinamizar visitas de escolas e palestras, a distribuir pára-ventos no Verão e guarda-chuvas no Inverno, a organizar peças de teatro e concursos, exposições e debates, a distribuir folhetos, cartazes e autocolantes, a recolher assinaturas e afixar faixas, a promover anilhagens de aves e limpezas de lixo, plantações de árvores e de placas. A fazer estudos e pareceres, seguir mapas e tirar fotografias, a mandar cartas e e-mails, a passar (literalmente) milhares de horas em reuniões e ao telefone. A dar entrevistas, muitas entrevistas…
Mais dez anos passaram (como é estranho o tempo). Os Amigos do Mindelo cresceram. A ROM afirmou-se. A Câmara Municipal decidiu-se e vai enviar o pedido de classificação de paisagem protegida para o Instituto de Conservação da Natureza. O consenso é geral. Há que criar um espaço de conservação da natureza e educação ambiental, a pensar na qualidade de vida dos que cá moram e dos que para cá virão morar. Sim, porque quem mais irá ganhar no meio disto tudo são os proprietários e a malta do imobiliário. Quem não irá querer morar perto da única área protegida da região, que até uma estação do metro tem?
“Desenvolvimento Sustentável em Mindelo - O sonho de uma comunidade que quer ser exemplo nacional”. Foi este o título de um artigo que escrevi em Dezembro para a revista do Eixo Atlântico. Foi este o tema da palestra que esta quarta-feira dei na Universidade Católica, contando aos alunos de Engenharia do Ambiente, e aos de Educação Ambiental (futuros facilitadores de Ecoclubes), a história de dez anos maravilhosos. Como a Agenda 21 de Mindelo mobilizou a população para definir o seu Futuro, como os Ecoclubes nasceram e se espalharam pelo País, como é fácil reciclar os resíduos ou cozinhar com o Sol. Como tiramos centenas de pessoas do sofá e as levamos a passear na natureza.
“O sonho de uma comunidade que quer ser exemplo nacional”... o leitor crítico deve estar a pensar “presunção e água benta, cada um toma a que quer”. Ou se preferirmos, para a vaidade e para a devoção não há limites. Bem, o nosso segredo é muito da última e alguma coisa da primeira. Afinal, também há que puxar pelo orgulho em ser Mindelense para animar a malta, né?
A criação da área protegida será para Mindelo (e Vila do Conde) o concretizar de um sonho. A comunidade irá acordar para uma realidade mais sustentável e, a todos os títulos, mais agradável. Aos poucos, é certo, com percalços e muito esforço. Mas o primeiro passo fica dado. Um dia talvez sejamos mesmo um exemplo nacional.
A nível pessoal, fecha-se um ciclo, em que o sonho comandou a vida. De muitos pulos e avanços, mas também de quedas sofridas. Passarei o testemunho, mas não sem antes abraçar a nova ROM, Fénix renascida aos 50 anos. Assim termina a crónica de uma despedida anunciada.

Pedro Macedo, Amigos do Mindelo

sexta-feira, março 09, 2007

Pela sua saúde, vá passear!

(bravosdomindelo no primeiro de janeiro de hoje)

É possível que esteja a ler este texto em frente ao mar. Porquê? Porque será que nos sentimos tão bem mirando o horizonte, no topo de uma montanha ou na praia? Porque gostamos tanto de piqueniques? Porque será tão especial passear numa floresta, ouvir as aves cantar ou apreciar as flores?

E será que aquele “vazio” que tantos sentem nas suas vidas não será apenas a falta desta ligação com os ritmos, cores e sons naturais? Todos sabemos que o contacto com a natureza aumenta o nosso bem-estar, faz-nos sentir bem… afinal, todos precisamos de “espairecer” de vez em quando, não?

Os cientistas já conseguiram provar este efeito curador da Natureza, a nível físico e mental. E até lhe deram um nome: biofilia. Comprovaram que uma simples janela para “olhar” o verde permite que os doentes se curem mais rápido ou que os trabalhadores sejam mais produtivos. O contacto com os animais, por exemplo, diminui a pressão arterial e o colesterol, reduz o stress e a sensação de dor. O governo britânico ficou convencido e investiu recentemente numa campanha para que se passe mais tempo em espaços verdes, numa estratégia para reduzir os custos com o sector da saúde. Por isso não estranhe que um dia destes um médico lhe receite um gato ou meia hora no jardim…

Ainda ontem perguntava qual o segredo da juventude a alguém que me disse que tinha feito 45 anos e parece que tem apenas 30… respondeu-me que passa todos os fins-de-semana a trabalhar na quinta, recarregando energias em contacto com a terra. Uma amiga que fez o Caminho de Santiago comigo escreveu: “adorei ter brincado com a bicharada toda no caminho, ter sentido as aves, sobretudo as pequeninas, os gatos emboscados nas ervas... ainda agora, fecho os olhos e ouço a música do vento a brincar nas folhas das árvores; os ribeiros a cantarem lestinhos por entre as pedras; a chuva, ora suave ora intensamente, a cair sobre a natureza, criando vida, permitindo a intensidade daquele verde tão relaxante que caracteriza a Galiza.” Outra amiga descrevia a sua experiência de escuteira: “a cada caminhada sentia-me bem, apenas com uma mochila as costas pelo monte fora, sentindo a natureza e tudo o que ela nos dá, que podemos ter de graça e teimamos em estragar… sentia-me livre, e quando chegava ao topo da montanha sentia-me em casa como se fosse possível até mesmo voar…”.

Num inquérito realizado em 2004 pelo Observa perguntaram o que gostariam as pessoas de ter à volta de sua casa. Cerca de 86% disseram mais “natureza” (jardins, campo, mar e praia) e apenas 8% optaram por mais equipamentos desportivos. Todos os promotores imobiliários sabem isto e por isso metem sempre o verde nas suas maquetas e a natureza nos slogans publicitários.

Por outro lado a indústria do turismo é a que mais cresce a nível mundial, destacando-se o ecoturismo, ou turismo de natureza, com taxas de crescimento de 20% ao ano. Só amantes da observação de aves são cerca de 80 milhões. Por isso é que a Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA) e a Confederação dos Agricultores de Portugal (CAP) estão a promover, em conjunto, uma central de reservas para grupos de turistas que queiram visitar explorações agrícolas onde as condições ambientais permitam a observação de aves. No programa de ecoturismo dos Amigos do Mindelo já participaram centenas de pessoas, de todas as idades, tamanhos e feitios.

Já estão a ver onde eu quero chegar, não? A conclusão é simples. A Reserva Ornitológica de Mindelo, se protegida, pode transformar-se numa fonte de saúde para os Vilacondenses e uma verdadeira galinha dos ovos de ouro, em especial para os proprietários. Isto se não tentarem matar a galinha, claro. Mesmo hoje em dia, com todo o lixo que por lá anda e sem nenhuma estrutura de apoio, são às dezenas as pessoas que encontro a correr, fazer ginástica ou fotografia de natureza ou apenas apreciar a paisagem. Uma simples prova de orientação juntou 600 pessoas na Reserva! O potencial está todo lá. Só falta a visão e a vontade política. Falta cumprir as promessas que se arrastam eternamente.

Por isso, caro Eng. Mário de Almeida, se está tão preocupado com a saúde dos Vilacondenses, não pense só nas urgências. Invista na prevenção. Na saúde e não na doença. É com todo o carinho e preocupação por si que digo: vá passear! E inspire-se em qualquer uma das áreas protegidas que já existem em tantos sítios, muitos dos quais sem metade do encanto que tem a ROM. E, já agora, leve o Ministro da Saúde consigo.

PS. Quer vir passear connosco e experimentar por si próprio o poder curador da Natureza? O próximo programa de ecoturismo é já no dia 17 de Março: iremos partir à descoberta da paisagem e da cultura de Aboim. Trata-se de uma tradicional povoação de montanha no Concelho de Fafe, um autêntico miradouro para as serras da Cabreira, do Marão, do Gerês, para a Albufeira do Ermal e para o vale da ribeira de Linhares. Pode encontrar mais informações em http://ecoturimindelo.blogspot.com. O passeio é gratuito e dispensa receita médica.

quinta-feira, janeiro 25, 2007

Obrigado Carolina (2)

Aqui está, em primeira mão, o artigo (versão nao censurada) publicado n´O Primero de Janeiro de amanha, quase hoje, sexta, na coluna "bravos do mindelo", "versão impressa" deste blog, conforme já anunciado:

Com toda a sinceridade, gostei de ler o teu livro. Afinal não é todos os dias que alguém nos abre uma janela para o “mundo real”, ou submundo como tu escreves. E sem estas janelas não é possível evoluir. Fiquei espantado com a tua coragem. Com a forma como assumes os erros do passado, teus e dos outros. E acima de tudo com a tua determinação em denunciar aquilo que dizes que não devia existir.
Foste chamada de puta e muito mais, como esperavas. Por gente séria com sérias telhas de vidro. Foste apedrejada em praça pública, em especial por quem quer manter o statu quo. Mas não te quero fazer de vítima ou santa, não sou assim tão ingénuo. Como tu admites no livro, tens muitas culpas no cartório e sempre escolheste o teu caminho. Mas se a própria vítima das agressões que ordenaste te perdoou, quem sou eu para atirar pedras?
Pessoas sérias ficaram chocadas com os pormenores da tua vida pessoal. Acham que não tinhas o direito de os contar. É pena. É pena que não tenhas ganho o prémio Nobel da literatura, que a tua amiga que escreveu o livro não tivesse um pouco mais de talento. Se fosse esse o caso ninguém te acusaria. Parece que em Portugal contar casos de “facadas” no matrimónio, pancada e pormenores íntimos das pessoas próximas é algo reservado ao Saramago e às “pequenas memórias”, ou às memórias das pessoas pequenas.
Graças ao teu livro foi possível dar andamento a processos que combatem a corrupção desportiva. Sou fiel ao Porto e admirador confesso do Pinto da Costa (afinal, também sofro de clubite aguda), mas quero justiça nos resultados. Prestaste um serviço público, denunciando o que sabes. Quantos de nós têm essa coragem de pôr, preto no branco, tudo aquilo que sabem? Houvesse mais coragem assim e haveria menos crime.
Será tudo verdade o que escreveste? Haverá alguma biografia 100% sincera? Impossível, diria eu. Terá sido mesmo coragem? Para lavar a consciência? Ou mera vingança pessoal? Terá sido para te protegeres? Há quem te acuse que foi apenas pelo dinheiro. Nisso concordo com o major, somos um país de invejosos. Olha, da próxima vez responde-lhes que o Paulo Morais, que até é professor universitário, também escreveu um livro, chamado “Mudar o Poder Local”, a delatar crimes de corrupção. E olha que ele não foi tão corajoso e não pôs os nomes aos bois…
O Banco Mundial disse que a diminuição da corrupção poderia pôr Portugal na rota do desenvolvimento, ao mesmo nível da Finlândia. Por isso tu e o Paulo, e todos os que denunciam casos de corrupção, ajudados pelo João Cravinho (por favor não te vás embora!) arriscam-se a serem mais importantes que o QREN - Quadro de Referência Estratégico Nacional – que nem sequer aborda este assunto...
“Parece ter chegado o tempo de começarmos a saber o que se passa”, como escreveu o Domingos Amaral no Diário Económico, na crónica que inspirou esta. A luta anti-corrupção (política, desportiva, económica…) começa a entrar na moda… mas precisamos de mais furacões “Carolina”. A Maria José Morgado é agora o bastião da nossa esperança. Sabes Carolina, eu não devia dizer isto mas até acho que vocês são parecidas, com esse vosso estilo de “quero lá saber da vossa opinião, eu quero é levar isto até ao fim”. E estou certo que também a ela muitos chamam de puta, os tais das telhas de vidro. Por isso aqui fica o meu agradecimento pela tua coragem e o incentivo para ajudares a Maria no que puderes. Bem hajam!

PS- No último artigo prometi ser mais positivo (consegui parcialmente) mas o famoso problema da quadratura não tem solução: quadrado e círculo nunca ocuparão o mesmo espaço. Por isso no próximo artigo prometo deixar o quadrado (“corrupção - política – futebol – construção imobiliária”) e centrar-me no círculo (“desenvolvimento sustentável”). Vamos a ver se resulta melhor.

quarta-feira, janeiro 10, 2007

Uma Escola de Vida


Em 2007 a ROM faz 50 anos. Esta é a segunda prenda que lhe dou (a primeira está aqui): um artigo que escrevi para publicação na revista 2Pontos. Aqui fica, em primeira mão, em estilo "velho lobo do mar a abrir o álbum das recordações".

Reserva Ornitológica de Mindelo
Uma Escola de Vida

É difícil escrever sobre a Reserva Ornitológica de Mindelo, principalmente para quem está por ela apaixonado. As palavras surgem sempre demasiado curtas. A ROM, como lhe chamamos, não é um paraíso, apesar de ter uma Natureza deslumbrante. Não é um inferno, apesar de ser um mo(n)struário de atentado ambientais. Se quisermos ser pedagógicos, podemos afirmar que é um espaço privilegiado para ensinar ciências naturais e humanas e, acima de tudo, sentir o que foram os últimos cinquenta anos de desenvolvimento em Portugal.
De facto (ainda) está lá tudo. A começar pelo Portugal Rural, que existia em 1957 quando a ROM foi criada. Naquela altura os grandes lavradores-proprietários de Mindelo entretinham-se a montar redes nas dunas para apanhar as rolas que passavam nas suas rotas migratórias. Diz-se que com artes únicas no mundo. Num certo dia chegou o Prof. Santos Júnior da Universidade do Porto, o primeiro ornitólogo português, e fez com eles o seguinte pacto: ele criaria uma área protegida, para defender as aves que eram na altura a paixão dos Mindelenses e, em troca, eles continuariam a apanhar aves mas apenas para anilhagem científica. E foi assim que nasceu a primeira área protegida: no dia 2 de Setembro de 1957, com 600 hectares e, imagine-se, com o apoio expresso de todos os proprietários.
Um parêntesis para esclarecer os leitores mais atentos e curiosos: num artigo publicado num número anterior desta revista pode ler-se que o Parque Nacional da Peneda-Gerês foi a primeira área protegida. Não é erro, visto que tudo depende dos critérios. De facto foi este, em 1971, a primeira área criada ao abrigo da primeira lei de conservação da Natureza (de 1970). Mas 14 anos antes já a ROM existia, criada ao abrigo do regime florestal, com plano de gestão, fiscalização capaz e muita actividade. De facto esses 14 anos foram os mais “produtivos” da ROM, já que esta se afirmou como um centro de anilhagem de renome mundial (foi a primeira reserva ornitológica da Europa), com milhares de aves anilhadas, destacando-se as mais de 20.000 rolas - ainda hoje um recorde.
Retomemos o desenrolar da história. No início dos anos setenta viria o Portugal do Veraneio. Mindelo ia tornar-se uma das praias mais conhecidas do Norte, recebendo centenas de casas de férias e milhares de banhistas apesar das águas frias e da forte nortada. A ganância quase matou a galinha dos ovos de ouro: construiu-se nas dunas e pinhais, a areia foi transformada em cimento, os esgotos começaram a misturar-se com as águas do mar. A ROM foi praticamente esquecida.
Mais tarde surgiu o Portugal Urbano. A Área Metropolitana do Porto cresceu e estendeu os seus braços: o IC1 (actual A28, ainda sem portagens) e agora o metro, colocaram a ROM a 30 minutos do centro do Porto. Agora já não se regressa a Mindelo ao fim-de-semana, mas ao final do dia. De 1958 a 2000 os terrenos urbanos e industriais aumentaram 600%: passaram de 4% a 26% da área total, com um crescimento médio de 89 m2 por dia.
Ainda assim a ROM resistiu e é hoje a última área do litoral do Grande Porto que não está construída, qual museu vivo do que foi a nossa paisagem: mar, praias e dunas, pinhais e campos agrícolas, ribeiros e pequenas lagoas, num mosaico único e entrelaçado de cores e perfumes. Aqui podem observar-se mais de 100 espécies de aves diferentes, entre rolas e garças, águias e galinhas d’água, borrelhos e gaios, chapins e pica-paus, chascos e narcejas, rabirruivos e andorinhas, cartaxos e alvéolas, abibes e patos, maçaricos e cucos, corujas e mochos, poupas e pegas, carriças e rouxinóis, piscos e tordos, pintassilgos e escrevedeiras… e ainda 14 das 17 espécies de anfíbios que existem em Portugal, 14 espécies de mamíferos, plantas dunares endémicas do litoral norte e muito mais.
E, finalmente, podem descobrir-se (facilmente) todos os destroços do naufrágio do nosso modelo de desenvolvimento: o lixo espalhado na terra e na areia, as árvores carbonizadas, o mar que entra pelas casas dentro, o cheiro fétido das águas inquinadas.
Anuncia-se para breve a criação de uma área protegida reclassificada ao abrigo da nova lei, passando a ROM finalmente a fazer parte da rede oficial de áreas protegidas, a par com o Parque Natural da Peneda-Gerês e todas as outras. Com direito a Centro de Educação Ambiental, percursos pedestres bem delineados, novas árvores e ribeiros limpos, negócios verdes e tecnologias sustentáveis. Ganhará o ambiente e a economia e acima de tudo a nossa qualidade de Vida. É o culminar da dedicação de milhares de pessoas que se uniram num movimento cívico para defender este espaço e que provaram uma coisa maravilhosa: a mobilização ambiental funciona. Na praia, nas ruas, porta-a-porta, com cartazes, folhetos, debates e exposições, estudos e abaixo-assinados, com os alunos das escolas envolvidos em peças de teatro ou actividades de descoberta da natureza, a ROM renasceu e entrou no coração das pessoas. Como consequência imediata entrou definitivamente na agenda política.
Um dia, visitar a ROM será como visitar um centro comercial dedicado à conservação da natureza, lazer e educação ambiental, exemplo máximo do desenvolvimento sustentável. Com tudo muito arrumadinho, atractivo e com o metro à porta. Visitar hoje a ROM é como visitar uma velha mercearia de esquina: está lá tudo (o Portugal Natural e o Humano), com todos os seus encantos e desencantos que nos marcam de forma indelével. Passear ao longo das prateleiras pode não ser muito confortável, mas podemos facilmente descobrir alguma coisa que ninguém via há muitos anos (uma ave desaparecida? um velho roleiro?) ou que acabou de chegar (uma criança de bússola no dedo a praticar orientação, umas dezenas de voluntários a limpar o lixo ou os alunos da Universidade do Porto nas suas investigações). Aqui o Passado e o Futuro fundem-se num presente de aniversário: são 50 anos de Escola de Vida.

sexta-feira, dezembro 22, 2006

Nassica, outlet ou outlaw?

Este Blog agora tem uma "versão impressa". Podem consultar aqui o primeiro artigo publicado hoje no jornal.

quinta-feira, fevereiro 02, 2006

My Inner Wilderness


Inside me there is Wilderness
Feeding intensively in my heart
Twisted wild in my chest.
I have found it in Amazonia
I have shared it in Caledonian Forest.
In this wilderness I am at home
I can be myself.

Inside me there is a Garden
It grows in my mind.
I use it in my work
Intentionally growing what I need.
My permanent relationships and culture are there
And I am trying to mimic nature.
My garden got wild in Findhorn.

I also have Farms
They are the place for community.
I don’t want to be a farmer
But there I also feel at home.
I can’t live without them
They nourish my will
But sometimes make me starve.

There is a wide Ocean connecting every place inside me
Linking every continent outside.
Diluting, absorbing and reshaping boundaries
Creating and playing with sand
Breaking down even the strongest feelings.
It is a place of stillness
Of deep immersion in my soul.

My place of arousing is the Mountains
I love climbing to the top.
And to stay there
Empowered and strong
Believing everything is possible
Even flying.
There I meet Joy.

Above is the infinite Sky
From where I came
To where I will return.
There lives my spirit
Blended in cosmic Love.
It is a magic and unimaginable place
Where Angels meet.

I am just a big strong Rock
With silent patience
Looking at the world and feeling the wind.
There are some trees and moss growing in me
I try to help and give a much as I can
I open fractures to take their roots to the soil.
I am alive. I am dreaming of becoming a beautiful sculpture in your hands.

Pedro Macedo, Findhorn 2002

sexta-feira, março 04, 2005

A Voz ao Povo de Entre-os-Rios



Faz hoje 4 anos. Caiu uma ponte, morreram 59 pessoas. Partilho o "texto de revolta" que escrevi em Março de 2001:

"Geralmente todos os grandes acidentes surgem na sequência de um número elevado de situações que, tragicamente, fazem coincidir os seus efeitos nefastos num determinado momento. Também relativamente à “tragédia da ponte” terá acontecido o mesmo: o Inverno tempestuoso, a fiscalização insuficiente, as descargas excessivas das barragens, a extracção e a acumulação das areias, a idade da ponte, a utilização que não estava prevista... todos os factores juntos, fazendo sentir os seus efeitos crónicos e agudos, provocaram a queda. Provavelmente nenhum deles isoladamente seria suficiente e por isso deveremos evitar simplificações dos acontecimentos que sejam injustas.

O que há a fazer neste momento, para além de tentar atenuar o irremediável, é evitar que novas situações semelhantes surjam procurando soluções de fundo. Podemos sempre instalar modernos aparelhos de controlo em todas as pontes e barragens, monitorizados à distância por numerosos técnicos qualificados e atentos, nacionais e estrangeiros, realizar visitas in loco todos os meses e inspecções rigorosas e exaustivas. Fazer grandes campanhas de sensibilização junto dos areeiros explicando-lhes os seus limites, que o lucro fácil é pecado, e prender os infractores, criar novos institutos e novas leis, mais quadros técnicos, novos programas de intervenção e fiscalização, fazer mais uma rodagem nas posições dos políticos. Tudo deveria ser começado pela substituição de todas as pontes com mais de cinco anos por pontes novas. Sem esquecer de controlar o clima e o azar.

Um interessante passatempo pode ser dividir as propostas acima em ingénuas, de fachada, insuficientes, de comprovada ineficácia, demasiado caras, complexas, impossíveis ou apenas irónicas.

Se pudéssemos voltar atrás no tempo (o que nem sequer com 10 milhões de pessoas a desejar ao mesmo tempo foi possível), o que é que teria de facto evitado que a ponte caísse? E já agora que fosse simples e barato?

Na verdade teria bastado ouvir os avisos das populações. E foram muitos e repetidos, chegando ao cúmulo de ter pessoas a serem chamadas ao tribunal no dia em que aparecia o primeiro corpo, acusadas de terem cortado o trânsito na ponte para chamar a atenção para a necessidade urgente de intervir.

Só as pessoas que vivem ao lado da ponte, que por lá passam todos os dias, que tantas horas passaram a olhar para ela, a contar histórias com a ponte como personagem, a ver trabalhar os areeiros e passar os camiões, a sentir os tremores e os ruídos e até os cheiros, dia após dia, só essas pessoas podem sentir o que nenhuma equipa de manutenção pode averiguar, o que nenhum técnico pode prever, o que nenhum político pode alguma vez reparar, e mesmo sem saber explicar porquê, essas pessoas sabiam que a ponte estava em perigo. E disseram-no.

E ninguém ouviu e ninguém fez nada. Porque em Portugal não são os cidadãos que mandam. É a tentação do lucro fácil, o bloqueio da burocracia, a sede de protagonismo dos políticos, na defesa de interesses que nada têm a ver com os das populações. Se as pessoas pudessem participar nas decisões colectivas que afectam directamente os seus interesses, se tivessem as suas cartas e abaixo-assinados à administração considerados, se as ouvissem, se fossem promovidos inquéritos de opinião para definir prioridades de investimento, promovidos referendos e assembleias... se os técnicos e os políticos tivessem parado para ouvir os berros de aviso dos cidadãos de Castelo de Paiva e intervindo de acordo, não havia idade da ponte, areeiro ou mau tempo que a deitasse abaixo, e nem sequer eram necessárias inspecções.

Este é o verdadeiro motivo estrutural e fundamental porque a ponte caiu: porque em Portugal não são as pessoas que mandam.

Desenganem-se os que acham que é uma questão de interioridade, porque nas cidades também as pessoas não são ouvidas e, se se gasta mais, também se gasta muito pior, assim como não são melhores os dramas diários que se vivem.

Para inverter esta situação é preciso admitir que a sabedoria colectiva dos cidadãos, integrada com o conhecimento técnico, vale mais que a decisão isolada do líder político fechado no gabinete, por mais reflectida e isenta que esta seja.

A possibilidade que temos hoje de de vez em quando escolher o menos mau dos candidatos eleitorais e votar em referendos esotéricos sabe a pouco e não é motivador. Sem formação nem informação, sem qualquer possibilidade real de influenciar as decisões, não se pode esperar que as pessoas assumam a política e participem. Quando em situação de desespero ou alvo de manipulação, os cidadãos acabam por optar pela única via que tem dado resultados: queimar pneus e chamar a televisão (aliás em ordem inversa). Obviamente esta é uma forma deturpada e não desejável de participação.

A implementação de um novo modelo de decisão participativa seria fácil, porque hoje já existem as ferramentas necessárias, mesmo em Portugal, e é impossível fechar os olhos aos exemplos de sucesso. Além do mais os técnicos, há muito bloqueados pela politiquice, receberiam certamente de braços abertos as prioridades definidas directamente pelos cidadãos.Mas no final talvez fôssemos obrigados a concluir que os políticos, tal qual os conhecemos, afinal não fazem falta nenhuma, antes pelo contrário. Que bem os poderíamos substituir por técnicos treinados para ouvir os interesses dos cidadãos. Poupando-se muito dinheiro, muita paciência e evitando que muitas das pontes caíssem."